sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Medicinas há muitas, seus palermas!... Será que há?



Poderia começar com uma tirada semelhante àquela imortalizada pelo cinema português: Medicinas há muitas, seus palermas!, o que certamente agradaria a quem pratica medicinas alternativas. Mas o assunto merece seriedade e, como tal, é por aí que este texto envereda. Comparem-se os anúncios de quem oferece serviços nesta área, a da medicina alternativa, aos panfletos de um qualquer astrólogo medium. Àqueles falta apenas incluir alguns problemas como o mau-olhado e as amarrações, seja lá o que isso for, nos seus anúncios para ficarem iguais aos destes. De resto, são em tudo semelhantes.


Os drs. das medicinas alternativas fazem tudo, resolvem tudo, sabem de tudo. É impressionante o conhecimento que têm acumulado ao longo da sua aprendizagem. Durante o tempo de fazer uma licenciatura - reconhecida, sim, vá-se lá compreender isso - os tais drs. absorvem o conhecimento equivalente àquele adquirido nos colégios de especialidade em Anatomia Patológica, Doenças Infecciosas, Pneumologia, Endocrinologia e Nutrição, Imunoalergologia, Medicina Desportiva, Ortopedia, etc, etc, etc. Sim, deverá ser assim, pois os drs. das medicinas alternativas estão aparentemente habilitados e consideram-se competentes para tratar doenças relacionadas com cada uma das áreas de diferenciação pós-graduada que enumerei atrás. Presumo que haja neste momento uma quantidade enorme de médicos especializados que dizem mal da própria vida ao perceber que afinal, quais tolinhos, andaram a perder tempo enquanto estudavam e dedicavam metade de uma vida à sua preparação académica.


Mas há outro aspecto que considero chocante: o facto de os drs. da medicina alternativa incluirem na sua lista de tratamento doenças como o cancro. Isto é chocante! Ponto. Como pode alguém dizer que consegue tratar esta doença enquanto há milhares de investigadores no mundo inteiro que tentam desesperadamente descobrir tratamentos para as muitas variantes de cancro - sim, são imensas e todas com mecanismos moleculares muito característicos - e, apesar de tudo, não evitam a morte de muitos milhares de pacientes. Dizer que se conhece a cura para o cancro é no mínimo arrogante e irresponsável da parte do dr. da medicina alternativa, ultrajante para esses investigadores científicos e ofensivo para com os pacientes (e, até, para com os seus familiares).


Para terminar, pergunto apenas: sendo que algumas das medicinas alternativas são milenares, como é que assistimos à morte de tantos enfermos ao longo de um período já tão longo? Na lógica da eficiência das medicinas alternativas, a sua actividade deveria ter evitado muita dor.


Felizmente ou infelizmente, espetar com um dr. atrás do nome não habilita ninguém a curar outrem. É preciso demonstrar cientificamente como a cura é conseguida. Senão, a diferença para um charlatão é anulada.

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