A rábula do profeta Marcello
Circula pela Internet uma citação atribuída a Marcello Caetano, um ditador. Como é hábito por estas andanças, são às centenas os internautas a embandeirar em arco, dando-lhe razão. Consideram mesmo ser a execrável figura capaz de profetizar sobre a situação sócio-económica do Portugal pós-regime ditatorial. Mas afinal que citação é esta e onde circula? É isto: “Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma Nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa. Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República”, palavras atribuídas ao ditador. E podemos encontrar isto pelas tão apelativas redes sociais, pela blogosfera e, até, em alguns canais de informação on line (e.g., http://maiortv.com.pt/o-que-disse-marcelo-caetano-sobre-o-25-de-abril/).
Há quem ache que não se deveria dar atenção às divagações fantásticas que pairam pela Internet, ou mesmo a este tipo de jornalismo-que-o-queria-ser. No último caso, há quem defenda que este é um artigo de opinião e, como tal, deve ser respeitado. Pois, mas as opiniões devem ser fundamentadas, senão são pesporrências de quem tem acesso fácil a canais abertos à opinião pública e lucra com isso. Na verdade, e sem querer entrar em teorias da conspiração, esta é uma forma muito subtil mas eficaz de divulgar ideias e incuti-las na população, principalmente a mais jovem. Ora sendo estas ideias de cariz fascista, cabe a cada um de nós, defensores da democracia, contra-atacar. Numa época em que a informação circula rapidamente, até nem é difícil aceder às fontes, coisa que os senhores jornalistas-que-o-queriam-ser nem se deram ao trabalho de fazer (afinal, sabe bem ser sensacionalista, é do ser humano).
Após alguns minutos de busca pela Internet (sem sequer ter de visitar uma biblioteca ou qualquer arquivo histórico), deparo-me com o esperado: as declarações são falsas!Baseiam-se numa passagem do livro “Marcello Caetano, Confidências no Exílio” de Joaquim Veríssimo Serrão (Verbo, 1985; pag. 208), como se pode aferir pela foto abaixo. As declarações originais são: “Sem o Ultramar estamos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade das nações ricas, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava em vésperas de se transformar numa pequena Suiça, a revolução foi o princípio do fim. Restam-nos o Sol, o Turismo, a pobreza crónica e as divisas da emigração, mas só enquanto durarem. As matérias-primas vamos agora adquiri-las às potências que delas se apossaram, ao preço que os lautos vendedores houverem por bem fixar. Tal é o preço por que os Portugueses terão de pagar as suas ilusões de liberdade.", portanto sobejamente diferentes. Não deixa de ser irónica a hábil forma como censuraram as palavras do ditador.
Era esta a forma do seu pensamento, manter a guerra, a escravatura, a ideia de superioridade de um povo sobre o outro. E não deixa de ser ridículo o ditador pensar que a revolução de Abril’74 levaria à pobreza crónica e à emigração; afinal ela estava, à época, instalada na sociedade Portuguesa – o acervo histórico que o comprova é amplíssimo. Não dizendo ele mentiras, quase tem piada o facto de o ditador estar contra uma forma de imperialismo, neste caso o das potências económicas que detêm o monopólio das matérias-primas energéticas. Portanto não há nada de profético, nem de admirável no mundo novo deste ditador. E foi por isso que se lutou. Contra uma guerra que se provou inútil, contra a falta de liberdade, contra a estagnação económica, social e cultural vivida na altura. E é por isso que todos devemos dilacerar este embrião que teima em desenvolver-se não só em Portugal, mas em toda a Europa. A mim chega-me ter de lidar com os avanços do partido do clã Le Pen, em França, e dos partidos de ideologia xenófoba na Suiça. E nem vale a pena falar na Hungria e na Polónia. A extrema-direita pode e deve ser travada, bastando para isso informar a população. Apesar de tudo, prefiro saber que o chefe de estado de muitos países Europeus, incluindo Portugal, é actualmente eleito por sufrágio universal. Se os cidadãos Portugueses fazem ou não um bom uso desta arma democrática, isso é outra discussão. Entretanto, 25 de Abril sempre!!! Viva a liberdade! Contra qualquer tipo de opressão política, social e intelectual, apoio incondicionalmente todos aqueles que lutam por escancarar as portas que um dia Abril abriu.
Saint Louis, 4 Maio 2014

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